O papel comunitário das rádios locais e o fenómeno da solidão na sociedade portuguesa contemporânea
Pressupostos e enquadramento do estudo
As rádios locais desempenham um papel relevante junto das comunidades do nosso país. Contudo, esse papel nem sempre é devidamente reconhecido, sem prejuízo de quem escutar atentamente muitas das suas emissões rapidamente se aperceber da constante interação que mantêm com os seus ouvintes, podendo-se assim em princípio depreender que tal acontece por responderem a necessidades do seu público. Desde logo necessidades de relação pessoal e de satisfação dos seus gostos e interesses que, em larga medida dificilmente poderão ser atendidas, independentemente de juízos de qualidade, pelas emissoras de âmbito nacional naturalmente indexadas a um plano mais abstrato de conexão com os diversos públicos. Mas também por razões bem mais imediatas em termos de relação interpessoal por parte de quem, em patamares quantitativa e qualitativamente diferenciados, sofre o isolamento ditado pela rarefação populacional dos territórios do interior, pelo anonimato das vidas urbanas ou pelos acidentes familiares e pessoais que a vida vai proporcionando. Daí a particular atenção que neste estudo é dada à problemática da solidão.
Já num estudo do Observatório da Comunicação datado de 2018 “destaca-se o facto de a grande maioria (das rádios locais) concordar ter uma proximidade grande com a comunidade, bem como afirmar que o objectivo das rádios deve ser ter um papel de proximidade com a comunidade” (p.18) Mas o mesmo estudo ressalta que, por razões económicas e outras, a progressão das emissões em cadeia e da concentração dos grupos radiofónicos suscita um intenso debate a propósito “da contradição do que é um dos princípios deste tipo de rádios – isto é, de se estabelecer como uma rádio de proximidade, localmente informativa e próxima da comunidade –, que, precisamente, se desloca, com as retransmissões, para uma radiodifusão demasiado extensa e menos, pouco ou nada localista.” (p.22) Isto sem se considerar que “qualquer tipo de retransmissão seja necessariamente negativa”.
Entretanto, várias das rádios locais, igualmente por constrangimentos financeiros, entre estes os referentes a financiamentos e limitações dos rendimentos com a publicidade, nomeadamente de firmas e outras organizações locais, sendo esta dominante em 92% delas, optaram por se tornar emissoras musicais.
Metodologia e apresentação gráfica dos resultados
Foi elaborado e distribuído via net pelas rádios locais, no período compreendido entre 17 de março e 15 de abril de 2021, um inquérito cujas questões e respostas se apresentam graficamente, sendo que, de um universo de cerca de 200 rádios identificadas como locais, foram recebidas 77 respostas.
Análise dos resultados
- Aspeto importante é desde logo o que se reporta à caraterização do público abrangido, tendo presente que alguns dos respondentes optaram por mais do que uma das alternativas de que dispunham: ressalta de toda a maneira a constatação de que os jovens não constituem a maioria dos ouvintes, surgindo os adultos de meia-idade como o grupo etário prevalecente, aumentando significativamente a sua importância se o juntarmos ao grupo dos idosos. Verifica-se, contudo, também, que as rádios locais assumem ser escutadas indiferenciadamente por ouvintes de todos os níveis etários.
- Já no que respeita ao género, é clara, com uma percentagem de 94%, a não prevalência de qualquer um dos dois, sem prejuízo de o género feminino prevalecer sobre o masculino quando existe aqui uma diferenciação. Curiosamente, 43% dos ouvintes são pessoas conhecidas dos colaboradores da rádio. Este dado parece consentâneo precisamente com o localismo destas emissoras que certamente favorece a interação entre uns e outros, a qual atinge significativamente 87% no âmbito de uma comunicação que se reconhece como regular, no patamar dos 99%, com destaque para os programas musicais que agregam 94% destas interações (assinale-se a importância dos chamados “discos pedidos” pelo intenso diálogo que suscitam entre apresentadores e ouvintes e mesmo entre estes), sucedendo-se os programas noticiosos (39%) e os desportivos (18%). É aqui muito curioso que para 70% do público poder conversar com os apresentadores seja uma razão forte para sintonizar uma rádio local. Evidencia certamente este fenómeno, de extraordinária aproximação pessoal, que os protagonistas das rádios também a promovem intencionalmente, inclusive através de 28% de contactos presenciais, quando se assume que 84% dos protagonistas das emissões aconselham os ouvintes quando tal é considerado necessário e oportuno.
O facto de nestas rádios 79% dos conteúdos de interesse local serem dominantes e 20% regulares, ainda que não dominantes (o que perfaz um total de 99%), é com certeza um destacado fator de captação e mobilização de ouvintes. Daí que 78% das emissoras inquiridas reconheçam que, por exemplo, as notícias locais constituem uma das importantes razões que levam os ouvintes a fazer delas a sua opção. - Entretanto, embora atualmente se reconheça a importância crescente da internet e muitas das rádios locais a utilizem, os contactos por esta via ficam ainda pelos 30%, aumentando todavia para 87% quando se trata das ligações com emigrantes. A participação dos ouvintes por via síncrona radiofónica atinge mesmo os 88%. Tudo isto sem prejuízo de 92% das rádios terem ouvintes que usam igualmente a internet, a par de 54% comunicarem também através de emails e 28% recorrerem inclusive aos contactos presenciais.
- A circunstância de 40% dos consumidores destas rádios manifestarem estados de solidão, sendo que também em 40% dos casos não é possível perceber se a solidão está presente, o que significa que somente 20% escapam com segurança a esta caraterização, não nos pode deixar indiferentes. É assim que 18% das intervenções dos ouvintes são feitas em torno de problemas pessoais, as quais se juntam às 76% que se centram em problemas locais que provavelmente mantêm muitas vezes com aqueles uma relação fundamental. Complementarmente, o facto de, com a pandemia da covid 19, se ter verificado um aumento de 52% dos contactos poderá, com uma razoável margem de certeza, ser associado às vivências sentidas ou pressentidas de insegurança e aos riscos de depressão e solidão daí decorrentes. É neste quadro, aliás, que, numa percentagem de crescimento na ordem dos 40%, os contactos em que se manifestam situações de depressão, tristeza e/ou solidão são crescentes.
O fenómeno da solidão como desafio para as rádios locais
Como forma de caraterizar, em geral, psicológica e existencialmente, a população que é potencialmente ouvinte das rádios locais, recuperam-se alguns dos tópicos do estudo, igualmente empreendido pelo Observatório da Solidão, em 2020:
- Sentem-se mais sós raramente ou algumas vezes, respetivamente, 26% e 30% dos inquiridos, enquanto nos extremos 25% nunca se sentem sós e 19 % muitas vezes. As mulheres, em 21% das respostas, sentem-se mais sós do que os homens (13%). No que respeita a escalões etários, as percentagens mais elevadas surgem entre os 60-70 anos, com 30% dos inquiridos a responderem que o sentem muitas vezes, em contraste nomeadamente com o grupo dos 20- 30 anos em que apenas 13% se sentem sós. Curiosamente, um total de 70% declarou que os amigos os procuram com muita ou alguma frequência e 74%, o mesmo em relação aos familiares, verificando-se ainda que em 88% dos casos esses familiares e amigos os acolhem muitas ou algumas vezes quando tomam a iniciativa de procurar, sendo de realçar que as mulheres se sentem muitas vezes mais bem acolhidas (35%) do que os homens (24%). Curiosamente, é nos escalões etários dos mais jovens e dos mais idosos que se sente melhor acolhimento por amigos (45% entre os 16 e os 20 anos, 44% entre os 60-70 anos e 50% entre os 70-75 anos) e pelos familiares (idem, 50%; idem, 48% e 50%), o que demonstrará um maior cuidado com os que mais possam necessitar de apoio.
- As atitudes solidárias transparecem nas respostas às perguntas acerca dos aconselhamentos dados a amigos e familiares sobre a melhor maneira de viver este período de confinamento com 77% dos inquiridos a fazerem-no com muita ou bastante frequência e 71% a receberem-nos de igual modo. Destaca-se aqui o escalão etário dos 70-75 anos em que 75% dá e recebe conselhos muitas vezes.
- A maioria (69%) manifesta mesmo que sente agora mais necessidade de ajudar os outros, com 31% das mulheres a revelar que o sentem muitas vezes e os homens 14%. Curiosamente só 4% acha mais vezes que os laços familiares vão ficar menos fortes, sendo a percentagem igualmente muito baixa (3%) dos que sentem que vão perder amizades.
- No que respeita a emoções e à sua expressão em atitudes, verifica-se que 30% dos inquiridos sente com muita frequência que está a perder tempo de vida, com uma maior percentagem das mulheres que o sente muitas vezes (32%) relativamente aos homens que aqui se ficam pelos 25%. São 24% os que na totalidade nunca pensam nessa possibilidade. Os restantes pensam nisso raramente (25%) ou algumas vezes (21%). Assinale-se que é no grupo etário dos 70-75 anos que mais se sente estar a perder tempo de vida, respondendo aqui 75% dos inquiridos que o sente muitas vezes, a que acresce o facto de nenhum ter afirmado sentir alegria com muita frequência e de terem indicadores baixos de esperança. Revela-se assim a importância de se dar especial atenção às consequências psicológicas e comportamentais que o confinamento estará a ter nos mais idosos.
Entretanto, o conjunto mais significativo, com 67%, nunca ou raramente sente vontade de chorar (com 59% dos indivíduos do género masculino a afirmarem que nunca o sentem, contra 36% do género feminino), experimentando, todavia, também nunca ou raramente alegria 54% das pessoas que responderam ao inquérito (com 17% dos homens e 27% das mulheres a responder nunca. A ansiedade é sentida algumas vezes ou muitas vezes por 58% dos inquiridos, com 30% das mulheres a responderem que a sentem muitas vezes, contra 14% dos homens. Contudo, 83% declaram nunca tomar sedativos, tendo já alguma expressão os que estão a comer mais algumas ou muitas vezes (53% no total, diferenciando-se as mulheres, com 26%, que dizem estar a comer muitas vezes mais enquanto os homens, com 14%, o dizem com essa dimensão). Este comportamento pode ter a ver tanto com a ansiedade como com uma maior disponibilidade de tempo, como ainda com uma combinação entre estes dois fatores. - Em abstrato, a esperança de que a vida melhore é partilhada, numa taxa elevada e no conjunto dos que assim o sentem algumas ou muitas vezes, por 82% dos inquiridos, o que é aparentemente contrariado quando à questão concreta sobre a perspetiva de o país ficar economicamente pior, 90% das respostas manifestarem com mais frequência esse receio a que se pode associar a preocupação com o que se passa noutros países, a qual é assumida por 93% dos respondentes. Destaque-se que na faixa etária dos 70-75 anos 100% dos respondentes declarou recear muitas vezes que o país fique economicamente pior e é aqui, com 25%, que se regista a taxa mais baixa de pessoas que têm esperança que a vida vá melhorar.
Conclusão
Numa sociedade em que a solidão, derivada de um isolamento social e tantas vezes pessoal, no seio de uma vizinhança que se ignora e até de uma família cujos laços se vão quebrando por força da sua desagregação física ou afetiva, as rádios locais emergem como um meio de contacto e partilha solidária cujo papel é com frequência injustamente ignorado ou subalternizado quando, todavia, se fala precisamente de solidariedade e se proclama o seu valor para a efetiva realização da dignidade humana.
Porto e ISCET, aos 30 de agosto de 2021
Adalberto Dias de Carvalho
Diretor